Presidente do Sindivinho-RS: “vinho brasileiro precisa ser mais divulgado”

Cristiane Passarin
Cristiane Passarin, presidente do Sindivinhos-RS (Foto:Maiara Herter/Objetiva)

Cristiane Passarin tem uma forte atuação no campo vitivinícola do país. Atualmente, é   presidente do Sindicato da Indústria do Vinho no Rio Grande do Sul (Sindivinhos/RS), estado responsável por 90% da produção dos vinhos do país. Ela é também diretora da Federação das Indústrias do Rio Grande do Sul (Fierg/RS), conselheira do Instituto Brasileiro do Vinho (Ibravin) e conselheira da Associação Brasileira de Bebidas (Abrabe). A jovem empresária é ainda conselheira da Passarin Indústria de Bebidas e diretora da União de Vinhos do Rio Grande – empresa com mais de 65 anos no mercado. Nessa entrevista, Cristiane fala sobre a alta carga tributária do setor; afirma que brasileiro tem preconceito com vinho nacional e sustenta que o marketing pode mudar esses cenário;  apresenta importantes dados relacionados ao consumo, importação e exportação de vinhos nacionais e revela suas mais ambiciosas propostas como presidente do Sindivinho-RS. Confira:

 Blog – Muita gente reclama do preço do vinho nacional e na hora da compra acaba optando por vinhos importados. Por que os vinhos nacionais são tão caros quando comparados aos vinhos estrangeiros vendidos no país?

Existem países onde o próprio governo subsidia os produtores de uva e vinhos, pois considera esse setor muito importante para o país; no Brasil, isso não ocorre. Na verdade, não acho que é uma questão de preço, pois existem vinhos nacionais e importados dos mais diversos valores. O  que ocorre é que o consumidor ainda tem um preconceito com relação ao vinho brasileiro. Existem sim, bons vinhos nacionais, de ótima qualidade e com preços menores; às vezes, a percepção de alguns consumidores é de que o vinho bom deve ser caro e isso não é verdade. Embora, já tenha se provado em concursos internacionais e degustação às cegas com experts que temos vinhos de excelente qualidade, precisamos divulgar esse fato de  uma forma mais intensa. Também, existem vinhos estrangeiros que vem para o Brasil  e são vendidos a preços irrisórios, todavia, sabemos que são de péssima qualidade. Algo muito importante para ressaltarmos também é que o espumante brasileiro é o melhor espumante do novo mundo.

Blog – O que pode ser feito para mudar esta realidade?

Precisamos investir mais em ações de marketing tendo como público-alvo o consumidor final; essas ações são bastante caras e os recursos disponíveis no setor vitivinícola são muito pequenos. Não é uma equação fácil, o trabalho por este motivo é lento. Vamos continuar lutando por uma carga tributária mais justa também (hoje ela gira em torno de 55% do produto). Essa seria uma maneira de o governo auxiliar um setor economicamente pequeno,  mas de extrema importância social.

Blog – Este ano foi realizado em Bento Gonçalves o Seminário de Tributação e Competitividade para o setor Vitivinícola brasileiro. Quais as principais reclamações? Alguma coisa já está sendo realizada neste sentido?

Temos o problema de não existir uma equalização nas alíquotas de ICMS nos estados, elas são muito diferentes. Há estado com 12%, em outro 35% e, assim por diante. Cada estado tem uma legislação diferente. Existe também a substituição tributária que recai diretamente na indústria. No mínimo, precisaríamos de um prazo maior para pagá-la. Muitas reuniões têm sido feitas com as Secretarias da Fazenda em alguns estados, mas os resultados quando existem são muito pequenos.

Blog – Quanto é produzido de vinho hoje no sul do país e quanto isso representa, em percentual, da produção total de vinhos nacionais?

São produzidos 242 milhões de litros  (safra 2013), representa 90% da produção nacional.

Blog – Essa produção tende a crescer, em sua opinião? Por quê?

Sim, pois estima-se que já existem parreirais plantados para produzirem um bilhão de quilos de uva.

Blog – Quais os estados que mais consomem os vinhos nacionais? 

O Rio Grande do Sul  em consumo per capta é o maior, pois nesse estado existe uma cultura voltada para o consumo do vinho; já o consumo em volume é maior em São Paulo e no Rio de janeiro porque existem muitas empresas que trabalham com foco nesses estados, grandes centros com grande potencial.

Blog – Quanto o Brasil importa de vinhos anualmente e quanto exporta? Quais os países que compram nossos vinhos?

Em 2012 importamos 74 milhões de litros e exportamos 640 mil litros, todavia a exportação vem crescendo ano a ano. Os destinos principais foram Estados Unidos, Inglaterra, Holanda e China.

Blog – O vinho de mesa representa ainda uma enorme fatia da produção dos vinhos nacionais. Qual o percentual hoje da produção destes vinhos e qual a sua opinião a respeito deste cenário?

O vinho de mesa representa 70% da produção dos vinhos nacionais e vale ressaltar que ele é elaborado com uvas híbridas e americanas, que são variedades mais produtivas e é algo que torna a bebida um produto mais econômico. Todavia, para sua elaboração, as técnicas e a tecnologia são as mesmas utilizadas para elaborar vinhos de variedades viníferas, ou seja, os vinho finos; portanto,  também são genuínos e produtos de qualidade que agradam o consumidor que aprecia sentir o  aroma e o gosto da uva. Nossos vinhos finos nos últimos 10 anos deram um salto em qualidade. No mundo globalizado em que vivemos temos acesso a toda tecnologia de ponta, agrônomos e enólogos excelentes,entre outros fatores. Assim, nossos vinhos batem de igual para igual com os bons vinhos importados e isso traz um enorme orgulho para toda a cadeia vitivinícola. Vejo que teremos uma maior exportação dos produtos e com o passar do tempo e de mais trabalho na divulgação, os brasileiros realmente irão valorizar nosso produto.

 Blog – Recentemente o Sindvinho-RS comemorou 65 anos de existência, quais as principais conquistas deste sindicato durante sua existência?

Nas nossas duas gestões, o Sindivinho-RS se modernizou e passou atuar de maneira mais firme e  ampla já que é estadual. Mas, estamos também atuando fortemente em todo o país na parte política do setor, estamos mais próximos de Brasília e das autoridades políticas de forma a defender nosso setor.

Ainda fornecemos às empresas assistência técnica e jurídica, cursos e palestras para qualificação.Criamos um informativo dirigido a todas as vinícolas com informações relevantes ao setor,também um site onde se pode esclarecer dúvidas, enviar sugestões e críticas e acompanhar as principais ações do sindivinho. Tamém estamos presentes em todas as redes  sociais e temos um planejamento estratégico. Além disso, encabeçamos o movimento em defesa ao vinho brasileiro, onde fomos todos às ruas.Realizamos os acordos coletivos;conquistamos uma cadeira no conselho do Ibravin e na diretoria da FIERGS,participamos de todas as reuniões da camâra setorial de uva e vinhos do Brasil,onde se reúnem as principais entidades ligadas a cadeia produtiva da uva e do vinho e se traçam estratégias para o setor, entre outras coisas.

Blog – Qual a proposta mais ambiciosa do Sindvinho-RS para os próximos anos?

Na verdade citarei as três que têm maior grau de importância: atuar com as demais entidades no projeto de modernização do Setor Vitivinícola  (fundamental para a cadeia produtiva da uva e do vinho); continuar a trabalhar fortemente na redução da carga tributária sobre o produto e trabalhar para aumentar o consumo per capta de vinho que ainda é muito baixo no Brasil.

 

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Quem Sou

Sou jornalista especialista em vinhos e em comunicação digital. Sou sommelier Fisar e diretora da Associação Brasileira de Sommeliers do DF. Possuo qualificação Nível 3 (Wine Spirit Education Trust) e o Intermediário do ISG. Também tenho certificado em vinhos franceses (FWS) e vinhos californianos (CWAS).

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